Apesar de já estar no radar do mundo político e jurídico há algum tempo, o discurso de despedida do ministro Luís Roberto Barroso do STF (Supremo Tribunal Federal) na última quinta-feira pegou muita gente de surpresa.
Como mostrou a colunista do UOL Daniela Lima, a tomada de decisão foi antecipada apenas ao atual presidente, Edson Fachin.
Foi na quarta-feira. Barroso avisou a Fachin que gostaria dos últimos momentos da sessão de quinta para a despedida. E fez o seu discurso emocionado.
Pouco antes da sessão, a informação foi compartilhada de forma discreta com o ministro Alexandre de Moraes e com poucos auxiliares de confiança.
Antes de entrar no Plenário, Barroso abraçou alguns servidores, e pessoas presentes relataram “um clima diferente”.
A aposentadoria de Barroso era um tema que estava em todas as conversas recentes. Ministros que encontravam o ex-presidente do tribunal tentavam convencê-lo a ficar.
Na quinta-feira, porém, Barroso entrou no plenário irredutível.
Pesou o lado pessoal
Desde que deixou a presidência, no último dia 29, o ministro vinha dando declarações públicas que aumentavam a possibilidade de sua saída da Corte estar mais próxima. Ainda assim, imaginava-se que ele iria aguardar o retiro espiritual que fará no fim do mês para tomar a decisão.
Em seu discurso, Barroso falou que “é hora de seguir outros rumos” e falou da importância de cuidar do lado pessoal e espiritual. “Nem sequer os tenho bem definidos, mas não tenho qualquer apego ao poder e gostaria de viver um pouco mais da vida que me resta. Sem a exposição pública, obrigações e exigências do cargo. Com mais espiritualidade, literatura e poesia.”
Segundo pessoas próximas ao ministro, Barroso realmente levou em consideração o lado pessoal. Deve se dividir entre Brasília e o Rio de Janeiro, onde mora o neto de um ano.
A respeito da suposta proteção institucional que estar no STF daria ao ministro, em relação a retaliações dos EUA, a avaliação feita por Barroso era que estando ou não como ministro do STF ele continuará na “linha de tiro” de possíveis sanções.
E o ministro não quer se abalar por isso.
“Não tem nenhuma relação com os Estados Unidos. Eu espero que isso se resolva, porque eu acho que nós simplesmente cumprimos e bem o nosso dever e não me é indiferente o tipo de sanção que recaiu sobre o ministro Alexandre e a esposa dele. Pelo contrário, acho que foi um movimento errado, baseado numa narrativa falsa e que eu acho que a gente tem que continuar a desfazer”.
“Eu já disse isso e acredito, há uma fagulha divina na verdade e acho que é preciso que eles conheçam a verdade. E aqui nós fizemos tudo como tinha que ser feito dentro da Constituição e das leis. E a mim, pessoalmente, eu tenho ligações acadêmicas com os Estados Unidos, de longa data. Estudei lá, fiz meu mestrado, lá fiz meu pós-doutorado, lá tenho uma ligação com a Escola de Governo de Harvard. Não me é indiferente, mas eu vivo a vida como ela vem também. Então, se consertar isso, eu vou ficar muito feliz. E, se não consertar, a vida segue”.
– Luís Roberto Barroso, em coletiva após anúncio de aposentadoria do STF.
Não há ainda data oficial para a saída do ministro, mas ela deve acontecer na próxima semana. “Eu não tenho certeza. Algum dia da semana que vem eu vou dar uma checada no meu acervo, mas no máximo até sexta-feira, e possivelmente antes”, disse.
FONTE: UOL
