Arraial do Latino foi de reencontros e homenagem a João Samper

Ex-alunos, professores e familiares reviveram histórias do Colégio Latino Americano

Ex alunos e professores reunidos para prestigiar a festa. (Foto: Juliano Almeida)

 

Nem a música, nem as barracas de comidas típicas eram as maiores atrações do Arraial do Latino neste sábado (25). O que mais chamava atenção eram os abraços demorados, os gritos de surpresa ao reconhecer um antigo colega e as histórias que pareciam voltar à tona a cada reencontro.

Em poucos minutos, desconhecidos para quem estava de fora voltavam a ser adolescentes compartilhando memórias de sala de aula, das gincanas, dos acampamentos e das tradicionais festas juninas do Colégio Latino Americano.

Depois de anos sem acontecer, o arraial voltou com um significado diferente. Desta vez, a festa foi organizada para homenagear João Samper, fundador da escola, e arrecadar recursos para ajudar no tratamento de saúde dele.

Depois de anos sem acontecer, o arraial voltou com um significado diferente. (Foto: Juliano Almeida)

 

A ideia surgiu quando a ex-aluna Isa Lima procurou Tatiana, filha de João, propondo uma ação beneficente. Em apenas 45 dias, o projeto saiu do papel e mobilizou antigos estudantes, professores, empresários e voluntários.

Segundo Tatiana, tudo começou de forma espontânea. Ao publicar fotografias antigas nas redes sociais, percebeu que as lembranças despertavam uma saudade coletiva.

“As pessoas começaram a comentar lembrando dos professores, das aulas, dos projetos. Foi um grande resgate.”, relembra.

Tatiana Samper. (Foto: Juliano Almeida)

 

A mobilização cresceu rapidamente. Vieram voluntários dispostos a trabalhar na festa, artistas que aceitaram se apresentar, empresas oferecendo patrocínio e ex-alunos que fizeram questão de participar da organização.

Para Tatiana, mais do que arrecadar recursos, o evento precisava devolver às pessoas um pedaço da história que elas viveram.

“Espero que elas saiam daqui carregando um pouquinho dessa nostalgia e desse abraço.”

João Samper acompanhou toda a preparação. Mesmo sem participar diretamente da organização, deu sugestões sobre como eram feitos os antigos arraiais, explicou detalhes da venda de ingressos e ainda ajudou a confeccionar algumas bandeirolas.

Ao longo dos preparativos, Tatiana ouviu dezenas de histórias sobre o pai, como relatos de ex-alunos que receberam incentivo quando pensavam em desistir dos estudos, de professores que encontraram liberdade para ensinar e de famílias que guardam até hoje lembranças da escola.

“Hoje é uma forma de honrar o legado dele.”, completa.

Entre os reencontros mais emocionantes estava o de Marinova Lima, ex-professora que atualmente mora em Portugal. Ela atravessou cerca de 10 mil quilômetros especialmente para participar da homenagem.

Marinova Lima. (Foto: Juliano Almeida)

 

A emoção aparece logo nas primeiras palavras ao recordar os anos em que trabalhou no Latino. “Foi a melhor fase da minha vida. Eu era muito feliz e não sabia.”

Ela lembra que os professores tinham liberdade para inovar. Levavam músicas para as aulas, produziam materiais próprios, organizavam projetos de leitura e encontravam diferentes maneiras de despertar o interesse dos alunos. Mas, para ela, o diferencial do Latino não estava apenas na metodologia.

“João fazia educação com o coração. Ele olhava primeiro para as pessoas.”, disse.

Segundo a professora, a relação construída dentro da escola era diferente porque havia proximidade entre direção, educadores e estudantes. O ambiente favorecia o diálogo e fazia com que todos se sentissem parte da mesma comunidade.

Ao ser perguntada sobre o que diria a João Samper, respondeu sem pensar duas vezes: “Deveria existir mais João Sampers por aí.”

Ex-aluna do Latino, Camila acredita que o espírito da escola continua vivo em quem passou por ela. Hoje professora, ela conta que foi ali que descobriu o gosto pela educação e aprendeu que ensinar também é acolher.

“O espírito do Latino ficou na gente.”, diz.

Ela lembra das festas juninas realizadas na antiga chácara da escola, das fogueiras, dos shows sertanejos e da mistura de estilos que caracterizava os estudantes.

“Tinha hippie, roqueiro, patricinha… Todo mundo junto.”

Ex aluna Camila. (Foto: Juliano Almeida)

 

Para Camila, o Latino era uma escola onde ninguém precisava se encaixar em um padrão. O acolhimento, segundo ela, fazia com que qualquer pessoa se sentisse pertencente e despertava nos alunos a vontade de aprender.

Ao reencontrar antigos professores, reviveu lembranças das aulas, dos recreios e até dos docentes mais rígidos, que, mesmo exigentes, eram lembrados com carinho.

Quem também voltou ao arraial foi Audie Andrade, ex-aluno, hoje dono de escola e presidente do Sinepe-MS (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de Mato Grosso do Sul). Para ele, participar da homenagem era uma forma de agradecer ao homem que influenciou sua própria trajetória profissional.

Audie Andrade, ex aluno. (Foto: Juliano Almeida)

 

Ele lembra que um dos grandes diferenciais do Latino era a convivência entre professores e alunos. Nos intervalos, não existia uma sala reservada apenas para os educadores. Todos compartilhavam o mesmo espaço, conversavam, brincavam e fortaleciam vínculos que ultrapassavam a sala de aula.

“Isso aqui é uma devolutiva. Não tem uma pessoa que converse com você e que não conte que o professor João mudou sua vida de alguma forma”, conta, emocionado.

Segundo Audie, João Samper não era lembrado apenas pelo ensino, mas pela generosidade. Era comum ouvir histórias de bolsas de estudo concedidas, conselhos dados nos momentos difíceis e incentivos que ajudaram alunos a descobrir suas profissões. Para ele, o que aconteceu no arraial é resultado de tudo o que foi plantado ao longo de décadas.

Arraiá do Latino. (Foto: Juliano Almeida)

 

Fonte: campograndenews

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