História de independência do país haitiano inspirou revoltas no Brasil

Brasil e Haiti se enfrentam, nesta sexta-feira (19), pela 2ª rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. A relação entre os países, porém, vai muito além dos campos de futebol. A história do país haitiano inspirou revoluções em solo brasileiro, assim como o Brasil apoiou o Haiti, dentro e principalmente fora de campo, durante 13 anos de crise da nação caribenha.
Entre ‘Jogo da Paz’, missão humanitária da ONU (Organização das Nações Unidas) e imigração, as nações do Brasil e do Haiti criaram laços fortes, apesar da distância continental de cerca de 4 mil quilômetros. O país localizado no mar do Caribe, com cerca de 11 milhões de habitantes, vai disputar sua segunda Copa do Mundo em meio a uma crise humanitária que assola o Haiti há décadas.
Missão da ONU e Jogo da Paz
A relação mais simbólica entre Brasil e Haiti começou em 2004, com a criação da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti). O professor de História Ian Rari explica que o país enfrentava um contexto politicamente conturbado no período.
“Em 2004, o Haiti passava por uma gravíssima crise institucional. O então presidente, Jean-Bertrand Aristide, havia sido recém-derrubado por um golpe de Estado. Com o objetivo de estabilizar o país, tanto política quanto socialmente, a ONU organizou uma missão de paz no Haiti com o nome de Minustah”, afirma.
O nomeado para liderar a missão humanitária foi justamente o Brasil, que enviou cerca de 35 mil militares entre 2004 e 2017, período de vigência da missão. O grande símbolo da aproximação entre os países foi dentro de campo, quando Brasil e Haiti se enfrentaram em um amistoso. “O Brasil era então campeão do mundo, já que a gente havia vencido a Copa em 2002. Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e todas as nossas estrelas participaram desse jogo. [O resultado foi] 6 a 0 para o Brasil, fora os ‘apavoros’”, conta Ian.
Apesar das presenças dos consagrados Ronaldo e Ronaldinho, foram Roger Flores e Vagner Love quem brilharam, com dois gols cada. A partida ficou conhecida como Jogo da Paz.
Inspiração histórica e ‘haitianismo’
Se o Brasil ajudou o Haiti por 13 anos a enfrentar a crise social e política de sua nação, foi o país caribenho que inspirou os brasileiros, séculos antes da missão e do Jogo da Paz.
“O Haiti foi o segundo país independente na história da América e tem uma história muito singular. O Haiti foi criado por uma revolução de ex-escravizados e escravizadas. Lá no fim do século XVIII, começo do século XIX, o Haiti, fazendo a sua independência dessa forma, serviu de inspiração para vários movimentos também contrários à escravidão na história do Brasil”, explica o professor.
Colonizados pela França, os haitianos iniciaram os movimentos revolucionários após a Revolução Francesa, em 1789. A população negra haitiana exigia o fim da escravidão e a igualdade racial. No entanto, após anos de guerras e tentativas mal-sucedidas, foi apenas em 1804 que o Haiti se tornou independente.
O fato serviu de exemplo para a Conjuração Baiana, de 1798, e a Revolta dos Malês, de 1835, conforme o professor. “O chamado ‘haitianismo’ vai estar muito forte e presente na história do Brasil”, conta Ian. O conceito de haitianismo se refere ao medo das elites escravocratas de novas revoluções.
Eliminatórias fora do país
Enquanto o Brasil participou de todas as Copas do Mundo, o Haiti disputa o Mundial pela 2ª vez. Sua outra participação ocorreu em 1974, quando caiu na primeira fase, em um grupo que continha Argentina, Itália e Polônia.
O caminho para voltar ao principal palco do futebol não foi fácil. A seleção haitiana precisou disputar partidas das Eliminatórias da Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) fora de seu território. O elenco realizou jogos em Barbados, na República Dominicana e em Curaçao, local em que venceu a Nicarágua por 2 a 0 e confirmou a classificação para a Copa.
Além disso, dias antes da competição, a Fifa (Federação Internacional de Futebol) determinou uma mudança no uniforme da equipe. “A revolução haitiana estava simbolizada na camisa do país, e a Fifa, que não permite manifestações políticas, fez o Haiti mudar o seu uniforme”, explicou Ian.
Histórico
A Seleção Brasileira enfrentará o Haiti pela 4ª vez na história. O primeiro jogo ocorreu em 1974, em um amistoso que terminou com vitória brasileira por 4 a 0. Já o segundo confronto foi em 2004, no já citado Jogo da Paz, com goleada por 6 a 0.
A última vez em que os times se enfrentaram foi em 2016, na Copa América. O placar foi ainda maior: 7 a 1 para a Seleção Brasileira. Comandado por Dunga, o Brasil marcou com Coutinho, três vezes, Renato Augusto, duas vezes, e Gabigol e Lucas Lima, com um gol cada.
O zagueiro Marquinhos e o goleiro Alisson foram titulares na partida, assim como devem ser novamente nesta sexta. O volante Casemiro, também presente nesta Copa de 2026, entrou durante o jogo de 2016, vindo do banco. A partida contra o Haiti ocorre às 20h30 (horário de MS) desta sexta-feira (19), na Filadélfia, nos Estados Unidos, e pode ser decisiva para a classificação para o mata-mata.
Fonte: Midiamax
